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Qué queu tenho a ver com isso?”
Alguém aí há de dizer: “- Qué queu tenho a ver com isso?”. Para essa pessoa, especificamente, a resposta é: “Nada!”. Mas estou escrevendo, no momento, para aqueles que se importam.
Quem me conhece sabe que não sou de ir às ruas nem levantar bandeiras nem impor meus pontos-de-vista. Mas gosto de propor temas que me intrigam ou animam ou, como no caso, escandalizam.
O Diário Catarinense de 14 de setembro passado avisou aos seus leitores sobre a existência de uma comunidade pobre, muitíssimo pobre mesmo. É a Comunidade Frei Damião, na vizinha Palhoça. São 7 mil pessoas, a metade crianças. Todos sobrevivem da reciclagem de lixo. Mas não é aquela reciclagem da televisão, não, é somente um aproveitamento desordenado do que os outros jogam fora.
Neste quadro desolador e chocante quero destacar duas mulheres: a repórter Alessandra Toniazzo e a presidente da associação de moradores da vila, Eulália Gonçalves de Melo. Não as conheço, mas sei que é preciso coragem para ir a determinados lugares, é preciso persistência para estabelecer uma relação de confiança com os moradores e, mais ainda, é preciso apresentar um bom trabalho para convencer o editor a dar destaque à matéria produzida.
Quanto à Eulália, não há quem possa descrever melhor a precaríssima situação. Ela diz: “– Não há investimento do governo e a situação só piora a cada dia. Eles dizem que fazem projetos, mas isso é só uma maneira de excluir e dar esperança. A única forma de conseguir alguma ajuda é fazendo protesto em frente à prefeitura.” Admirável Eulália, ela tem energia para protestar.
Ainda que com um nome começando por “EU”, o que essa mulher deseja é melhorar a vida de outros, e faz disso a luta e a motivação de sua vida.
Talvez ela não saiba que seu nome é grego e significa “bem falante”. Sem acento é o substantivo feminino “eulalia”, que designa “modo agradável de falar”, “boa dicção, boa maneira de falar”. Pelo que o jornal transcreve, Eulália faz jus ao nome que lhe deram. Pela reação dos leitores e das autoridades, ela terá ainda de falar muito e por muito tempo, até conseguir uma condição mínima de dignidade para a vila.
Não tenho uma proposta sobre isto, se é o que esperavam. Estou apenas relatando uma realidade que me deixa estupefata (não há outro termo, acreditem).
Conheço gente que enviou doações para vítimas de cheias no nordeste, gente que todos os anos doa uma boa quantia para o Criança Esperança, gente que se sensibiliza com a situação na África. E ainda tem as baleias…
Mas não seria o caso de olhar para mais perto? Não para o sujeito que “faz ponto” para pedir esmolas, não. Nem para a criança que, explorada pelo adulto, faz carinha triste numa esquina qualquer para que você compre um pacote de balas de procedência duvidosa.
Poderíamos voltar nossa atenção para a faxineira do prédio em que moramos, cujo filho é estudioso e gosta de ler, mas não tem acesso a livros que não os didáticos enquanto nossa estante está entupida de obras que nem desejamos.
Ou poderíamos dar uma chegadinha à escola pública mais próxima, não para reclamar do barulho que fazem as crianças quando saem (elas são saudáveis, por isto mesmo pulam e falam alto), mas para perguntar se nosso conhecimento, nossa experiência de vida e nossos contatos podem ser úteis à próxima geração.
Poderíamos, quem sabe, fazer contato com as muitas Eulálias, anônimas Eulálias, valorosas e valentes mulheres que não desistem, que lutam porque acreditam que gente como nós não vai ficar indiferente ao que se passa em redor de nós.
É fácil se preocupar com a África, é até bonito, O noticiário internacional e as ONGs midiáticas valorizam nossa preocupação, que pode ser até assunto nas rodas intelectuais e políticas. E as baleias… Ainda tem as baleias!
Difícil é se envolver com gente, é olhar para o vizinho que sofre, porque aí nossa responsabilidade aflora e nos põe frente a frente com nossa inércia, nossa alienação, nossa omissão… E nossa culpa.
Não tenho condições de ser Eulália. Mas, felizmente, conheço um portador que pode levar até ela minha singelíssima contribuição.
Alguém aí também quer?
















